Boletim da Semente


Campanhas das Sementes



A Rede de Sementes Livres no Brasil lança, com este primeiro número, o nosso boletim de informações, para trazer notícias sobre as sementes, ações para elas, e as campanhas de divulgação do conhecimento.
A primeira informação que queremos trazer para todos é que a contribuição para o boletim é livre e bem vinda. Todos podem trazer suas ideias para nosso ambiente de conversas. Em nossa página da 'internet' há mais detalhes.
O tema central do boletim é a semente, obviamente. E, por razões também óbvias: além de outros, o nosso alimento vem das nossas sementes. Cuidar das sementes significa cuidas dos alimentos.
Ao tema sementes outros serão acrescentados no boletim - variando entre trabalhos práticos e mesmo a arte.
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A Rede de Sementes Livres Brasil promove ações com o intuito de gerar conhecimento, consciência e iniciativas nas pessoas. 

Uma destas ações são as 'Campanhas'. O artigo abaixo foi escrito pelo Daniel Holberbaum e faz parte de uma iniciativa cujo intuito é a difusão de ciência, arte e cultura relacionadas às sementes de todos os tipos, estas pequenas gigantes que constituem e geram maravilhas e inestimáveis recursos para o ser natureza.

Que seja uma semente de boas reflexões e ideias!



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Campanha Sê(Mente) - É um jogo de palavras que inclui o verbo Ser e as palavras Semente e Mente, no sentido deu que somos uma semente, somos o que comemos, e somos mente, consciência.

 
Daniel Holderbaum





Sê (Mente) Boletim 006

A Semente da Araucária e a Gralha Azul


Diz a lenda* que uma gralha negra, recolhida num galho de araucária, o pinheiro brasileiro (Araucaria angustifolia), foi acordada pelo som dos golpes de um machado. Assustada, a gralha voou para bem alto, para não presenciar a morte do pinheiro. Lá no céu, a gralha negra ouviu a voz de um anjo, pedindo que ela retornasse para o pinheiral e ajudasse a proteger e dispersar a araucária. Em troca, a gralha seria vestida de azul celeste para que as pessoas pudessem reconhecer aquele pássaro, seu esforço e dedicação. A gralha aceitou a missão e foi coberta por penas azuis, exceto ao redor da cabeça, que permaneceu negra. Então a gralha retornou ao pinheiral e passou a coletar e plantar a semente da araucária, conforme havia pedido o anjo, ajudando no estabelecimento de milhares de novas mudas, que se desenvolveram e deram origem à floresta de araucárias no sul do Brasil.

Hoje, é de conhecimento popular nos estados do sul que a gralha azul é um dos animais dispersores da araucária. Durante a época de amadurecimento das sementes da araucária, quando há fartura de alimento, as gralhas azuis pegam essas sementes, conhecidas como pinhões, que dão em grandes pinhas esféricas, e tentam abri-las bicando-as contra o chão, acabando por enterrar algumas no solo. Posteriormente alguns destes pinhões germinam, originando novas plantas, que se tiverem sorte, irão se transformar em frondosas árvores.

No entanto, a gralha azul não é o único animal "plantador" de araucária. Na verdade, os temas da dispersão e expansão/retração da araucária em territórios meridionais brasileiros são um tanto controversos. Para que as sementes da araucária sejam espalhadas pelo entorno e além, é necessário um agente dispersor de sementes, entre os quais podem se incluir aves (como a lendária gralha azul), pequenos mamíferos e o próprio ser humano. E também é necessário que estas plantas cresçam num ambiente adequado, com características de solo e clima apropriadas para o seu desenvolvimento.

Neste sentido, com base em evidências arqueológicas, paleoecológicas e arqueobotânicas, alguns estudos indicam que houve uma forte expansão territorial da araucária há cerca de 1000 a 1500 anos nos estados do sul do Brasil. Nos círculos acadêmicos aponta-se como possível causa dessa expansão o estabelecimento de condições climáticas mais quentes e úmidas no Holoceno1 tardio; mas também foi identificada uma interessante sobreposição espaço-temporal entre os então novos territórios ocupados pela araucária e sítios arqueológicos de antigos assentamentos indígenas, o que deu origem à hipótese de uma contribuição de grupos humanos na dispersão da araucária no sul do Brasil, por meio da coleta e transporte do pinhão, manejo do ambiente e possivelmente o plantio de árvores, considerando que o pinhão constituía importante fonte de energia na dieta de indígenas no Brasil meridional.

Então, a sobreposição verificada entre a área de expansão da araucária e assentamentos indígenas, cerca de 1000 a 1500 anos atrás, indica uma influência humana na dispersão da espécie, ou a expansão foi causada por fatores puramente ambientais, e a araucária, um valioso recurso alimentar e madeireiro para os humanos, é que nos atraiu para novos territórios? Ou será que ambos os processos podem ter ocorrido simultaneamente, e se retro-alimentado no estabelecimento de uma paisagem eco-cultural? Será que o ser-humano que vivia nestas terras tinha vestes azuladas, tal como a gralha? E se tinha, será que atualmente o azul continua intenso?


*Adaptada por Daniel Ferreira Holderbaum com base em diversas versões. O autor agradece à turma da disciplina de Ecologia Evolutiva (semestre 2011/2), especialmente ao Professor Maurício Sedrez dos Reis e aos colegas Denise Olkoski e Glauco Schüssler, do Programa de Pós Graduação em Recursos Genéticos Vegetais (UFSC), por frutíferas discussões e sugestões.


Para saber mais:

Behling H, Pillar VP, Orloci L & Bauermann SG (2004) Late Quaternary Araucaria forest, grassland (campos), fire and climate dynamics, inferred from a high-resolution pollen record of Cambará do Sul in southern Brazil. Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology 203:277-297. http://dx.doi.org/10.1016/S0031-0182(03)00687-4

Bitencourt ALV & Krauspenhar PM. 2006. Possible prehistoric anthropogenic effect on Araucaria angustifolia (Bert.) O. Kuntze expansion during the late holocene. Revista Brasileira de Paleontologia 9(1):109-116.

Reis MS, Ladio A & Peroni N (2014) Landscapes with Araucaria in South America: evidence for a cultural dimension. Ecology and Society 19(2):43. http://dx.doi.org/10.5751/ES-06163-190243


1O Holoceno é uma época geológica que começou com o fim do Pleistoceno (cerca de 11.500 anos atrás), quando terminou a última era glacial. O Holoceno continua até o presente, embora no últimos anos tenha sido cunhado o termo Antropoceno para definir os últimos milênios, nos quais o ser-humano tem influenciado fortemente o ambiente do planeta Terra.




Sê (Mente) - boletim 005


Somente Três Sementes



Três plantas de grande importância cultural e alimentícia para o ser-humano, a abóbora (Cucurbita pepo L.), o milho (Zea mays L.) e o feijão (Phaseolus vulgaris L.) foram domesticadas em um processo interativo, contínuo e sequencial, ao longo de um período de cerca de 6 mil anos, ao fim do qual as três culturas acabaram sendo incorporadas no sistema agrícola de populações do novo mundo. De acordo com evidências científicas1, a abóbora foi domesticada há cerca de 10.000 anos, por grupos caçadores-coletores de proto-agricultores mesoamericanos; 3.000 anos depois o milho foi domesticado, agora por populações humanas em sistemas de baixa produção de alimentos, que já cultivavam a abóbora, na mesma região (México meridional). Então, há cerca de 2500 anos o feijão foi domesticado2 em economias agrícolas bem estabelecidas, baseadas na abóbora e no milho.

O cultivo em consórcio da tríade milho-feijão-abóbora, tão tradicional e difundido que virou lenda3 nas sociedades agrícolas nativo-americanas, facilita uma dieta equilibrada, na qual os três alimentos se complementam em termos nutricionais para os humanos: o milho fornece abundância de carboidratos; o feijão é rico em proteínas, compensando os baixos níveis de aminoácidos essenciais no milho; e a abóbora é fonte de carboidratos, fibras e vitaminas, e suas sementes são ricas em óleo.

Ao longo da domesticação das três espécies, o milho, que fornecia mais energia por hectare, passou a ser a cultura principal, enquanto o feijão e a abóbora complementavam a dieta humana; e as três plantas, assim como o ser humano, se beneficiavam de associações mutualísticas. Assim, é possível que a (co) domesticação destas plantas em "pulsos" ao longo do tempo tenha sido fortemente influenciada não apenas pelo ser-humano, mas também pelas próprias populações vegetais envolvidas, considerando as plantas domesticadas interagindo com os humanos e entre si, em uma rede de influências.

Existem várias associações positivas nas interações entre o ser humano, o milho, o feijão e a abóbora. O ser humano seleciona, cultiva, cuida e propaga as plantas, que fornecem fartura de alimento e uma dieta balanceada; o milho provê um suporte natural para o feijão, que tem hábito trepador; o feijão fixa nitrogênio no solo, melhorando a sua fertilidade (na verdade, quem realiza este serviço são bactérias fixadoras de nitrogênio atmosférico, que se encontram em nódulos na raízes de algumas leguminosas, como o feijão), e também pode ajudar a estabilizar o milho, tornando-o menos vulnerável ao acamamento sob ventos fortes; por sua vez, a abóbora, de hábito rasteiro e folhas largas, forma uma cobertura verde que inibe o crescimento de plantas espontâneas, o escoamento superficial da água da chuva e a erosão, e contribui para um micro-clima que diminui a evapotranspiração e o consequente ressecamento do solo. Por fim, a grande quantidade de resíduos pós-colheita deste consórcio pode ser deixada sobre ou incorporada ao solo, aumentando seus teores de matéria orgânica e sua estrutura.

Agora, imagine que todas essas associações e retroalimentações, bem como suas consequências eco-culturais, emergem de somente três sementes (quatro para ser preciso, se contarmos o zigoto - a semente de Homo sapiens), em um sistema de cultivo relativamente simples, mas que em sua simplicidade é arrojado, prático e de caráter sustentável, contribuindo simultaneamente para uma dieta saudável das populações humanas e para a fertilidade do solo que nutre as plantas, e constituindo elemento importante do processo agro-eco-cultural de co-domesticação da abóbora, do milho, e do feijão pelo ser-humano.


Para saber mais:

Smith, B.D. (2001) Documenting plant domestication: The consilience of biological and archaeological approaches. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 98, n. 4,
p. 1324 – 1326.

Schmutz, J. et al. (2014) A reference genome for common bean and genome-wide analysis of dual domestications. Nature Genetics 46,
707–713. doi:10.1038/ng.3008. Disponível on line em http://www.nature.com/ng/journal/v46/n7/full/ng.30....



Sê (Mente) - boletim 004


A Lenda das Três Irmãs




A seguinte estória* foi registrada por Lois Thomas, da Ilha Cornwall, Canadá. É parte de uma coleção de lendas compiladas por estudantes do Centennial College, Toronto, Canadá. Pede-se que a lenda seja compartilhada em espírito de respeito à cultura nativa americana.


Era uma vez, muito tempo atrás, três irmãs que viviam juntas em um campo. As irmãs tinham tamanhos diferentes, e também usavam vestimentas diferentes. A irmã pequena, tão jovem que apenas engatinhava, usava um vestido verde. A irmã do meio vestia uma túnica amarelo-brilhante, e gostava de correr quando o sol brilhava e o vento suave soprava em seu rosto. A irmã maior era muito alta e sempre se mantinha em pé, acima das irmãs menores, protegendo-as. Vestia um xale verde-pálido, e tinha longos cabelos amarelos, que se agitavam em sua cabeça sob as brisas.
As três irmãs se pareciam em somente uma coisa: elas se amavam muito, e estavam sempre juntas. E sabiam que não conseguiriam viver separadas.

Uma certa vez, um jovem índio veio ao campo das três irmãs. Andava ereto como uma flecha e destemido como a águia que circulava no céu acima dele, e sabia como conversar com os pássaros e seus pequenos irmãos da terra, o musaranho, o esquilo, e as jovens raposas.


As três irmãs - a jovem que engatinhava, a que vestia a túnica amarela, e a dos cabelos esvoaçantes, ficaram muito interessadas no jovem índio. Elas o observaram encaixar sua flecha no arco, viram-no esculpir uma tigela com sua faca de pedra, e se perguntaram aonde ele ia à noite, quando partia.

No fim do verão, quando da vinda do jovem índio ao campo das irmãs, uma delas desapareceu. Era a irmã mais nova que se vestia de verde e mal conseguia manter-se em pé sozinha no campo. Suas irmãs ficaram muito tristes com sua ausência e choraram por ela até o outono, mas ela não retornou.

Mais uma vez, o jovem índio veio ao campo das três irmãs. Ele havia vindo coletar juncos na beira de um riacho próximo para fazer hastes de flechas, e as duas irmãs que restavam o observaram e contemplaram maravilhadas as pegadas de seus mocassins na terra, que marcavam a sua trilha. Naquela noite, a segunda irmã, a que se vestia de amarelo e sempre queria correr para longe, desapareceu. Ela não deixou marcas de sua partida; tudo o que havia eram as pegadas de mocassim do jovem índio.

Agora restava apenas uma das irmãs. Alta e ereta ela se manteve no campo sem abaixar a cabeça com tristeza, mas lhe parecia que não poderia viver ali sozinha. Os dias

diminuíram e a noites eram mais frias. O seu xale verde havia esmaecido e se tornado fino e velho. Seu cabelo, antes comprido e dourado, estava seco e emaranhado pelo vento. Dia e noite ela suspirava para suas irmãs retornarem, mas elas não a ouviam. Sua voz quando tentava chamá-las era baixa e lamuriosa como o vento.

Até que, em um dia de outono, o jovem índio escutou o choro da terceira irmã que havia sido deixada a se lamentar no campo. Ele se compadeceu dela, a tomou em seus braços e a carregou para o abrigo de seus pais. Imaginem que surpresa a aguardava lá! Suas duas irmãs perdidas estavam no abrigo do jovem índio, seguras e muito felizes por revê-la. Haviam ficado curiosas sobre o menino índio, e foram com ele para ver como e onde ele vivia. Quando chegaram, gostaram tanto do seu abrigo que decidiram passar o inverno lá. E faziam de tudo para serem úteis.

A pequena irmã de verde, agora bem crescida, ajudava a manter o pote do jantar cheio. A irmã de amarelo ficava sentada junto à prateleira, pois planejava encher o pote do jantar depois. Então, a terceira irmã se juntou a elas, pronta para moer farinha para o jovem índio. E as três nunca mais se separaram.

Hoje em dia todos conhecemos estas irmãs, e elas são tão importantes agora quanto o eram para o jovem índio. Pois a irmã pequena vestida de verde é o feijão, a irmã de amarelo é a abóbora, e a irmã maior, com seus longos cabelos amarelos esvoaçantes, é o milho.

- Lenda Iroquesa
1

*Texto traduzido e adaptado por Daniel Ferreira Holderbaum a partir do original em
inglês, "The Three Sisters: Exploring an Iroquois Garden". Cornell Garden-Based Learning, 2015. Disponível em http://blogs.cornell.edu/garden/get-activities/sig...

Curiosidade: Existe um guia sobre como plantar as três irmãs de acordo com o costume iroques, "How to plant the three sisters" (em inglês). Cornell Garden-Based Learning, 2015. Disponível em http://blogs.cornell.edu/garden/get-activities/sig...


As três irmãs (The Three Sisters). Mother Earth News Website, 2015. Ogden Publications. Disponível em http://www.motherearthnews.com/organic-gardening/c...



Sê(Mente) - boletim 003

A Semente da Agricultura

Por quê, onde, quando e como o ser humano desenvolveu a agricultura? A idéia mais difundida diz que a agricultura surgiu da necessidade de suprir populações humanas que se expandiam na região do Crescente Fértil1, no oriente médio, em um processo desencadeado por volta de 10.000 AC. Foi então que iniciou-se a domesticação de plantas e animais, e 1 milênio depois, alguns animais domésticos e o cultivo de grãos silvestres já eram amplamente disseminado na região. Apenas posteriormente a (agri)cultura teria sido levada para a Europa, a África, a Ásia e finalmente para as Américas.

Uma outra resposta, um pouco mais complexa, diz que a "semente da agricultura" foi plantada muito antes. Já há dezenas de milhares de anos, os seres humanos praticavam a caça e a coleta de recursos, mas, mesmo que inconscientemente, manejavam o ambiente ao fomentar a existência de campos de caça, coagir suas presas a apresentar maior docilidade, ou facilitar o desenvolvimento de plantas favoráveis, por exemplo. Para tanto, os seres humanos aprendiam através da observação da natureza e realizavam, isoladamente no tempo e no espaço, e geralmente de modo esporádico, atividades como queimadas para a renovação de pastagens e atração de novas presas, a proteção de plantas de interesse, e seu plantio por sementes ou estacas.

No entanto, acredita-se que um salto de consciência, em direção ao emprego deliberado de técnicas de manejo ambiental e seu desenvolvimento, a significativas inovações na manufatura de instrumentos, e ao desenvolvimento da linguagem, da arte e das tradições como transmissores de cultura, culminou no surgimento dos primeiros proto-agricultores, há cerca de 40.000 anos, no início do Paleolítico Superior2. A partir de então e gradualmente, os diferentes povos da humanidade, em todos os hemisférios do globo, desenvolveram a proto-(agri)cultura em diferentes níveis.

O que ocorreu em 10.000 AC na região do Crescente Fértil
foi, então, um novo salto neste processo, com a transição do tempo em que suplementávamos a caça e a coleta com a manipulação esporádica e extensiva do ambiente, das plantas e dos animais, para o tempo em que estas práticas se tornaram suficientemente intensivas e prolongadas de modo a provocar mudanças genéticas, morfológicas e comportamentais nas plantas e nos animais sob manejo, ou seja: a sua domesticação pelo Homo sapiens.

Provavelmente, este "segundo salto" tenha sido facilitado pela existência de espécies complacentes como o trigo e a cevada nas ricas terras do Crescente Fértil, e impulsionado pela necessidade de alimentar uma população em franca expansão. Neste "amálgama" entre genética, cultura e ambiente, nasceram as primeiras grandes cidades (na antiga Mesopotâmia), o comércio, a religião organizada e a ciência. De certa forma, o ser-humano plantou a semente, e a semente germinou a civilização.

Para saber mais:

Harlan, J.R. 1975. Crops and man. American Society of Agronomy and Crop Science Society of America, Madison. 295p.
Rindos, D. 1984. The origins of agriculture - an evolutionary perspective. Academic Press, San Diego. 325p.
Tudge, C. 1998. Neanderthals, bandits and farmers – How agriculture really began. London: Weidenfeld & Nicolson
Vavilov, N.I. 1992. Origin and geography of cultivated plants. Cambridge University Press, Cambridge. 498p.

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1Crescente Fértil
- área no oriente médio em forma de lua crescente, voltada para o sul, que vai desde o norte do Egito, passando por Israel, Jordânia, Líbano, Síria e Iraque, até o Golfo Pérsico, conhecida pela grande abundância de recursos naturais e por ser o "berço" da civilização.

2Paleolítico Superior - a terceira e última subdivisão do Paleolítico ou Idade da Pedra Lascada. De modo geral, abrange o período de 50.000 a 10.000 anos atrás, coincidindo grosseiramente com o a época em que o Homo sapiens começou a demonstrar habilidade para utilizar pensamento simbólico complexo e expressar criatividade cultural.




Sê(Mente) - boletim 002

Domesticação, co-evolução e as sementes

Há milhares de anos o ser humano vem domesticando diferentes espécies vegetais e animais visando a melhoria da nossa condição de vida. Mais recentemente, a domesticação progrediu para o melhoramento genético, através de avanços nos conhecimentos em biologia, genética e estatística. Mas no quê de fato consiste a domesticação?

Domesticação está relacionada a controle, a "trazer o ser domesticado para dentro de casa" (em latim, domus). Sucintamente, é um processo onde a intervenção humana provoca mudanças ecológicas na paisagem e nas populações de plantas e animais, gerando um ambiente mais produtivo e seguro para os humanos. Este processo pode ser inconsciente num primeiro momento, mas quando o benefício de uma determinada ação é notado, deve logicamente levar à ação propositada.
A domesticação pode ser vista como um "círculo virtuoso", onde, ao longo do tempo, a presença humana num ambiente dá origem a novos nichos ecológicos, que estarão disponíveis a tipos de plantas e animais adaptados e possivelmente úteis aos humanos; por sua vez, o acúmulo destas plantas e animais torna o ambiente mais atrativo para os humanos, facilitando a progressão da domesticação. Mais do que isso, evidências indicam que a domesticação é um processo co-evolutivo entre os humanos e as espécies domesticadas, pois tem o potencial de alterar as frequências alélicas (a ocorrência de diferentes tipos ou variantes genéticas) em populações domesticadas, que por sua vez podem causar alterações nas frequências alélicas das populações humanas domesticadoras, como seria de se esperar em um sistema co-evolutivo com seleção recíproca entre comunidades em interação
Humanos interagem com uma miríade de outras espécies para sua sobrevivência, entre elas e de modo proeminente o arroz, o milho e o trigo, que constituem parte importante da dieta alimentar de muitos humanos há milênios. Já parou para pensar que, em termos evolutivos, ao mesmo tempo em que os humanos têm selecionado o trigo, por exemplo, visando características de interesse como uma maior concentração de glúten no grão (conferindo mais "liga" às massas), o trigo pode estar selecionando características como a tolerância ao glúten, aumentando a frequência deste traço em populações humanas, de modo que a longo prazo a parceria altera e beneficia evolutivamente a ambas às espécies?

Leitura recomendada:

Clement, C.R.; Borém, A.; Gomes Lopes, M.T. 2009. Da domesticação ao melhoramento de plantas. In: Borém, A.; Lopes, M.T.G.; Clement, C.R. (Eds.). Domesticação e melhoramento: espécies amazônicas. Editora da Univ. Fed. Viçosa, Viçosa, MG. pp.11-38.
Ehrlich, P.R.; Ehrlich, A.H. 2012. The Dominant Animal: Human Evolution and the Environment (Google e-Livro) Island Press, 472 páginas.

Rindos, D. 1984. The origins of agriculture - an evolutionary perspective. Academic Press, San Diego. Chapter 4 - The evolution of domestication, pp. 138-178.





Sê(Mente) - boletim 001


"Em verdade, em verdade vos digo, que se o grão de trigo não cair na terra e não morrer,
permanecerá ele só; mas, se morrer, dará muito fruto."

João 12:24
A semente foi uma das maneiras mais engenhosas que a natureza encontrou para propagar a vida, sendo a parte reprodutiva dos vegetais superiores. Ela é resultado da fecundação e subsequente desenvolvimento do óvulo de uma planta. A semente, quando madura, geralmente é constituída por uma casca protetora chamada tegumento, por um tecido nutritivo denominado endosperma, e por um embrião. O endosperma irá nutrir o embrião quando a semente iniciar a germinação, até que a planta-bebê comece a obter seus nutrientes através da raiz e do processo da fotossíntese, por meio do qual ela utiliza água, ar e a luz do sol para gerar energia química, que será utilizada em seu metabolismo. No entanto, em um sentido mais amplo, é comum chamar de semente todo tipo de estrutura que permite reproduzir ou propagar um vegetal, tais como os bulbos e tubérculos.

De uma pequena semente pode surgir desde a mais tenra das ervas até a mais robusta das árvores. E estas plantas serão um elemento essencial para a manutenção da vida no planeta, interagindo e coevoluindo com outros seres, incluindo o ser humano. Em grande parte, foi a semente que permitiu o desenvolvimento da civilização, sendo peça chave no desenvolvimento da agricultura, quando o ser humano passou a cultivar e multiplicar alimentos, fibras e plantas medicinais. Isto possibilitou a mudança da vida nômade dos caçadores-coletores para a vida sedentária e a fixação de grupos humanos em vilas e nas primeiras proto-cidades.

Ao longo de mais de dez milênios, o ser humano tem selecionado, plantado, colhido e se alimentando de sementes ou das plantas que surgem das sementes, em um processo dinâmico e contínuo no qual milhares de variedades vegetais foram obtidas, constituindo um patrimônio comum da humanidade de valor imensurável. E nesta relação, tanto o ser humano seleciona a semente, quanto a semente seleciona o ser humano, e se tornam inter dependentes.

Sob um prisma mais filosófico, a semente é a origem de tudo. 
É potencialidade pura. A semente representa a vida, a morte e o renascimento. Dentro do grão do trigo, que parece e funciona como semente, mas na verdade é um fruto seco (mais precisamente uma cariopse, o ovário desenvolvido da flor de uma gramínea), existe em potencial uma planta inteira, com suas raízes, caule, folhas, flores e grãos. E estes grãos contém em si o potencial de transformar-se em pão e cerveja, depois em nossa própria carne e sangue, e finalmente em planta e grão, mais uma vez.






Daniel Ferreira Holderbaum tem 29 anos, nasceu e foi criado em Florianópolis, litoral sul do Brasil. É engenheiro agrônomo e mestre em ciências, com foco em recursos genéticos vegetais. Teve a graça de estar do outro lado do mundo, ver a aurora boreal, e dormir sob o céu estrelado do deserto do Saara. Durante sua vida acadêmica, trabalhou com lavanda, abacaxi e outras bromélias, maçã, e atualmente estuda o milho transgênico. Se interessa por horticultura, música, astronomia e espiritualidade.
E adora as praias, as montanhas e as florestas, além de cozinhar, conversar, rir, namorar e tocar tritarra.