Contos


A mandioca corpo de Mandi


Em tempos muito antigos, a filha de um chefe indígena, apareceu misteriosamente grávida.
O chefe quis punir quem desonrara a filha. Para saber quem era, pressionou-a fortemente com ameaças e severos castigos.
Ela permanecia inflexível não dizendo o nome e afirmando que não tivera relação com homem algum.
O chefe resolveu então matá-la, para vingar a honra e para dar uma lição a todas as moças da tribo.

Ele então, sonho com um homem branco, que lhe dizia:
- Não faça isso. Não mate a sua filha. Ela é inocente. Jamais teve relação com nenhum homem.
Ele temeroso desistiu de matá-la.
Após nove meses, nasceu uma linda menina. Sua pele era branca como a nuvem mais branca.
Mandi era seu nome. Todos ficaram intrigados e amedrontados quando viram a cor de sua pele.
- É um triste presságio. Desgraças virão sobre nossa tribo e sobre nossas plantações.

A tribo pediu ao Cacique para fazer desaparecer a sua neta, afirmando que ela traria desgraças para todos.
A noite o Cacique levou a neta ao rio, lavou-a nas águas e suplicando as forças dos espíritos benfazejos.
No dia seguinte reuniu a tribo e disse que os espíritos tinham recomendado que Mandi ficasse entre eles.

Os índios obedeceram e com o passar do tempo, Mandi foi crescendo e todos acabaram se apaixonando por ela.

Um dia simplesmente ela morreu.
Foi um lamento geral. Resolveram enterrar Mani na maloca do seu avô. Ele chorou dia e noite sobre a sepultura da menina.
Foram tantas lágrimas que do chão brotou uma plantinha.
Os pássaros vinham bicá-la e ficavam inebriados, até que um dia a terra se abriu, e as raízes de uma planta surgiu.
Todos comentavam: como as raízes são negras por fora e por dentro são alvíssimas.

Os índios colheram as raízes, que pareciam a pele de Mandi, comeram e descobriram que eram deliciosas.
E inspirados concluíram que aquelas raízes seriam a vida de Mandi se manifestando.

E foi assim que a Mandioca se transformou no principal alimento dos índios Tupi-Guarani e de outras tribos.
Mandioca significa “a casa de Mandi” ou o “ corpo de Mandi”.

Lenda retirada do livro “ O casamento entre o céu e a terra”
Contos dos povos indígenas do Brasil
Boff, Leonardo, 2011. Editora Mar de Ideias,  Rio de Janeiro.

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